


Mariângela Nascimento* e Fábio Lobianco** Terça-feira, dia 4 de maio, será submetida à votação no Congresso Nacional o Projeto de Lei que altera a Lei de Inelegibilidades, conhecido pelo nome de “Ficha Limpa”. É um projeto de Lei que visa ampliar casos de inelegibilidade com o intuito de garantir a probidade administrativa, moralizar o exercício do mandato dos nossos representantes políticos e aumentar o rol de situações que podem impedir o registro de uma candidatura. O que pretende este Projeto é fazer algumas alterações/correções na Lei existente, afastando preventivamente pessoas da disputa eleitoral até que resolvam seus problemas com a Justiça Criminal. Não se trata de considerá-las antecipadamente culpadas, mas de adotar uma postura preventiva, em defesa da sociedade. Este Projeto é resultado da mobilização da sociedade civil organizada e de cidadãos que desejam ver moralizada a vida política do país e acabar com a cultura da impunidade. Para isso lançaram mão de um instrumento constitucional, muito pouco usado na nossa democracia que se quer participativa: a Iniciativa Popular. Foram recolhidas mais de 2 milhões de assinaturas apoiando o Projeto, exigindo a criação de mecanismos institucionais complementares para inibir as ações ilícitas e a corrupção na política. É uma multidão que se mobiliza para salvaguardar o patrimônio público e eleger a responsabilidade ética como condutora da vida política do país. Por isso, é muito mais do que uma exigência moralizante, é uma posição política da sociedade civil. Gostaria de levantar algumas questões que definem, na minha opinião, este movimento como uma ação política da sociedade. Há muitos anos convivemos com o enfraquecimento e o descrédito das instituições representativas, que carecem de revisão e reestruturação urgentes, seja o partido político, o processo eleitoral e outros instrumentos de representação. Sem querer me alongar nesse item, devo lembrar que a crise de representação se traduz, concretamente para o cidadão, numa impossibilidade de exercer o direito de acompanhar e fiscalizar as ações do seu representante político. Não há canais institucionais que a sociedade possa se valer para controlar os atos dos seus eleitos; do mesmo modo, não há instrumentos legais que obriguem os eleitos a prestarem contas à sociedade. Portanto, o distanciamento entre representante e representado permite o livre agir na esfera do poder, o que acaba facilitando as práticas abusivas e ilícitas. E mais, é muito difícil o cidadão ter acesso às informações sobre a vida do candidato. A disputa eleitoral não revela quem é, mas o que parece ser o candidato. Ou seja, o tal marketing político constrói uma imagem “vendável” do candidato como o melhor produto no mercado político, como diria Schumpter. O que acarreta sérias distorções de discernimento e julgamento eleitoral, colocando no poder verdadeiros lobos transvertidos de cordeiros. As distorções tendem a crescer ainda mais pelo fato das informações veiculadas pelos grandes jornais do país, estarem voltadas para os interesses dos donos dos jornais. O processo eleitoral, nesse caso, é a negação deliberada da verdade dos fatos, isto é, a prática da mentira na política. Aí nos perguntamos: como garantir o nosso direito de julgar e agir livremente. Nesse espetáculo, portanto, apostamos apenas naqueles com trajetória conhecida de compromisso com o bem público; quando somos, de fato, testemunhas de uma carreira de militância política responsável. Mas nem sempre somos testemunhas da vida pública; infelizmente nós, cidadãos, estamos, na maior parte do nosso tempo, ocupados com a vida privada. O período eleitoral é justamente o momento em que somos convocados a participar da vida pública, é o momento de tomar para si a responsabilidade do destino da cidade, do país. Mas agir com responsabilidade pressupõe, além de ter acesso a informação e a formação, apostar no rigor da legislação para que o processo eleitoral ocorra de forma transparente e justa. Esse projeto de Lei é esta aposta: exige do Poder Legislativo a ampliação e inclusão de recursos legais para garantir a probidade da vida pública e justificar politicamente o sentido da representação e do voto; convoca o Poder Judiciário para fazer valer esses instrumentos legais; acolher as denúncias e julgar, a partir daí, aqueles pretensos a carreira parlamentar ou retirar da cena política parlamentares que se revelam em desacordo com o sentido do Bem Público. Este projeto pode ainda não ser o ideal, certamente enquanto prática pode revelar algumas limitações e exigir mudanças ao longo do tempo, mas a sua aprovação no Congresso é fundamental para a consolidação da nossa democracia, além de ser um passo importante na mobilização da sociedade para apressar a reforma política, esquecida pelos nossos representantes, que parecem não ter interesse nela. É uma iniciativa da sociedade e não do judiciário, é a demonstração da capacidade de organização, pressão e poder das ações dos cidadãos comuns para ampliar as possibilidades da democracia participativa e reparar as instituições representativas. São nesses momentos que a sociedade se afirma enquanto lugar-fonte da legitimidade e do poder. |
* Mariângela Nascimento é cientista política e coordenadora de formação do Instituto Cidade; ** Fábio Lobianco é advogado.

Nucomic: A Campanha foi lançada em 2008, mas somente agora tomou grandes proporções. Qual a explicação disso?
DT: Acho que uma junção de fatores. Estamos em ano eleitoral; o número de adesões ao projeto cresceu e isso era necessário para que ele fosse encaminhado; e mesmo a atuação da mídia que resolveu “adotar” o projeto nos últimos meses.
Nucomic: Você acha que a internet e as redes sociais influenciaram nesta divulgação?
DT: Sem dúvida alguma. Ainda que a Constituição de 1988 permita a iniciativa popular de lei como um dispositivo de participação direta na democracia brasileira, sabemos que os requisitos, especialmente o número de assinaturas necessário para o encaminhamento das propostas, inviabilizam que tal mecanismo seja acionado pela população com maior freqüência. Nos últimos anos observamos alternativas criadas pela Câmara Federal na tentativa de facilitar o andamento das iniciativas populares de lei, como ouvidorias e comissões de sistematização que dispensam o número constitucional de assinaturas requerido, encaminhando os projetos para que um parlamentar interessado na defesa assuma e apresente como seu. Mas essa situação foi alterada substancialmente com o surgimento da internet, onde assinaturas podem ser coletadas online, tornando a participação direta anteriormente prevista mais efetiva, para o bem ou para o mal.
Nucomic: A Campanha já conta com mais de 1,6 milhões de assinaturas. Você acha que a cada eleição as pessoas estão mais engajadas?
DT: Não classificaria a adesão ao projeto ficha limpa necessariamente como engajamento, exatamente pelo teor moralista que alguns setores da imprensa e da sociedade civil conferem ao projeto. Seguramente, política e moral são dimensões da vida social que caminham juntos e não é interessante que eles se separem. A política lida com assuntos de natureza moral, mais do que com assuntos “técnicos”, e é para isso que ela serve: discutir o lado polêmico da vida, o lado que não pode ser resolvido por simples equações matemáticas. Porém, quando os argumentos mobilizados na esfera pública ganham um teor rebaixado, que aqui eu chamo de moralista, o resultado é perigoso, pois isso apequena o debate. Na história do país podemos lembrar o resultado das críticas a João Goulart feitas pelo lacerdismo que invadiu a política na década de 1960 e por uma certa sociologia paulista que sustentou o conceito de populismo como categoria para classificar governos de forte apelo popular. O resultado todos se lembram: o regime de exceção instalado no país a partir de 1964. Não afirmo, com isso, que a história se repetirá. Aponto, apenas, os perigos do nascimento de uma onda moralista como essa que o projeto ficha limpa tem ocasionado.
Nucomic: Você acredita, caso o projeto seja aprovado, que a população está preparada e envolvida o suficiente para fiscalizar o cumprimento da Lei?
DT: Acredito, sim, que se o projeto for aprovado a população não terá mais muita força para fiscalizar sua aplicação, precisamente porque ele tenta conferir um elemento “técnico”, burocrático, às decisões que serão tomadas. Eu voto num deputado, num senador, mas nunca votei em um juiz ou desembargador. Como a sociedade irá punir decisões equivocadas de um colegiado de juízes depois que as eleições já tiverem acontecido e os possíveis candidatos tiverem sido filtrados por decisões erradas? Acho que essa é a questão de fundo que passa irrefletida pelos defensores do projeto.
Nucomic: Você acha que políticos podem se aproveitar da campanha para fazer demagogia?
DT: Acho que sim. Ainda mais em se tratando de ano eleitoral e de um projeto dessa natureza, encampado pela grande impressa e que é imposto quase que como prova de honestidade. Nas matérias e opiniões que tenho lido, parece que se o sujeito não for a favor do ficha limpa é como se assinasse atestado de corrupto. Acho que isso manifesta bem o que venho chamado de moralismo por trás da proposta.
*Diogo Tourino é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF (2004), mestre em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro - IUPERJ (2007), cursa doutorado na mesma instituição e atua como pesquisador do Centro de Estudos Direito e Sociedade - CEDES/IUPERJ. É professor universitário desde 2004, tendo experiência na área de ciência política, com ênfase em teoria política, atuando principalmente nos seguintes temas: democracia, eleições, pensamento nacional e modernização. Foi professor substituto do Departamento de Ciências da UFJF, leciona sociologia e filosofia no ensino médio e atualmente é professor Assistente do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Viçosa (UFV).